29.6.05

Diálogos de Morte # 14

Que bela ideia deu ao nosso herói, caríssima M. , que, depois de com gosto a ler, também ele apressadamente se dirigiu ao assunto, procurando bom desporto. Os resultados, que nem sempre correm pelo melhor, aqui se apresentam, em diálogo, claro está.

- Muito boa tarde.
- Boas-tardes, graciosa senhora.
- Que deseja?
- De antemão lhe pedindo desculpas, atrevo-me a dizer que se tivesse a sua figura nunca descansaria as coisas nesse pé, que os desejos, perante tão belos olhos, podem ser tão ilimitados, que só depois de atingir o Céu teria confissão.
- Diga.
- Não se enfureça, senhora, que bem galantear sobre a verdade, não merece reprimenda.
- Diga.
- Pretendo inscrever-me neste salão.
- Salão?
- Pelo que os meus berlindes observam, diz-me a imaginação que esta casa terá salas a perder de vista.
- E também temos actividades ao ar livre. Quer inscrever-se?
- Se é esse o termo, sim.
- Em quê?
- Em papel. Sempre em papel. Não quero a minha graça em computadores, se fizer a fineza.
- Sim, mas em que modalidade?
- Como pôr na boca o que a cabeça pede… Tem alguma que se oriente pelo Oriente? Que torne o corpo em que a idade ja vai pesando um pouco mais leve de levar, por assim dizer?
- Como assim?
- Digamos assim… Uma coisa total, que sou pouco dado a só trabalhar partes, não falando em partidos, que esses já têm o nome com eles, se bem chega a mim. Actividade para o músculo, osso e alma... Meditabunda!
- Olhe…
- Vejo no seu delineado sobrolho que levou ao peito o rabo da palavra, minha senhora. Meditação, se menos aflição lhe fizer.
- Temos ioga.
- Temos inscrição!
- É muito bom.
- Muito obrigado. Passam-se anos sem ouvir frases tão agradáveis como a que saiu do seu encanto.
- Qual é o seu nome?
- A minha graça é M.A., mas na verdade quero fazer uma inscrição dupla.
- Dupla?...
- Também é meu desejo inscrever o Espírito.
- Desculpe?!...
- O Espírito é um belo animal, minha senhora. E andando tão desassossegado, pensei que
- Um animal?... Não percebo.
- Nem eu. Imagine que numa noite farejou os meus passos, e que desde esse dia, salvo seja, nunca mais quis viver errando.
- Mas um animal?... Ainda não percebo.
- Selvagem mas manso, este Espírito.
- E chama-se Espírito?
- Não é uma boa graça, minha senhora?
- É estranho.
- Mesmo que no seu mavioso tom não lhe note nota de interrogação, lhe respondo: é, é estranho. E rafeiro, se mais deseja entender.
- Não… O nome é que é estranho.
- Ora essa! Na medalha que ostenta sobre esse belo peito leio Florbela.
- É normal!!!
- Já vê: tudo é normal.
- Mas aqui não aceitamos animais.
- Não sou vegetal, bela flor.
- O Espírito é um cão, certo?
- Não me faça pensar, minha senhora.
- Olhe, desculpe lá mas não percebo nada da sua conversa e não estou para aturar malucos.
- Não pensa, bela flor?
- Não penso em quê?!
- Esquecendo o animal que o Espírito é, e noutro contexto analisarmos se o espírito, o outro, é ou não um cão, também ele noutro sentido, não a faz pensar?
- Aqui não podem entrar cães! Ponto final!
- E no jardim, bela flor?
- Ai, ai; ai, ai. Qual jardim?
- Tem esta casa actividades ao ar livre, acreditando na sua insuspeita sinceridade. Se assim é, logo na minha imaginação se plantou um jardim onde praticar o que se paga para usufruir de bom desporto. Ou entro em enganos?
- O senhor quer inscrever um cão em aulas de ioga? Tenha juízo!
- Ajuíze também a senhora, se não lhe transtornar tão meritório exercício. Por que razão não pode um animal estar num jardim?
- São as regras!
- Que cegam!
- Que cegam?
- São as regras que cegam, minha senhora. Noutro jardim, o Espírito vagueia livremente. Neste, não entra, segundo as suas boas regras.
- Não pode. Prontos!
- Prontos? Assim se estraga o ramalhete, minha flor.
- Saia daqui pra fora senão chamo o segurança.
- Acalme a sua raiva e deixe lá enjaulada a sua fera. Para me acompanhar já tenho Espírito, não preciso de primata. Mas, permitindo-me, e se não navego eu a milhas da boa Ilha da Verdade, a filosofia oriental é muito afeiçoada ao animal. Deviam criar um espaço para eles. Quem sabe se a verdadeira fortuna não está em bem cuidar da Natureza, aquela que alberga outros animais além de nós, maus reis deste mundo. É uma sugestão, que de e com graça lhe deixo. Boas-tardes, bela flor. Meditabundas.

23.6.05

Por Outros Lados...

(...)
"Não há tradição portuguesa, na generalidade, de bons críticos no sentido de alguém capaz de dedicar consideração (em sentido etimológico) a uma obra, salvo algumas excepções em que destaco João Lopes, para referir um honroso exemplo no caso do cinema. Há críticos honestos e discretos mas pouco apelativos ao leitor comum, há críticos que acredito se creiam honestos mas cujo perfil os denuncia em sentido bem diverso.
E depois há todo um exército (é este o termo exacto para o espírito corporativo e/ou castrense de que enfermam e que nem fazem qualquer questão em camuflar, ostentando-o mesmo como farda de gala) cujo papel mais tem de 'jornal-de-parede' à luz de qualquer manual de marketing, ainda que elementar, e que vai escrevendo aqui e ali textículos rudimentares em que promove um autor de quem é, frequentemente, amigo, compincha, sócio, etc. (para evitar recorrer a eufemismos)."

22.6.05


Chik Chik Chik
There's No Fucking Rules, Dude (mp3)

21.6.05

Diálogos de Morte # 13

Caríssimos leitores,
Não que estejamos muito virados para o diálogo, por aqui. Aliás, muito pelo contrário (se bem que algumas excepções sejam tão dignas de aplausos, que nos fazem soltar um sonoro e isolado comentário: «Que divino canto tenho eu ouvido por aí, Maestro! E SIM, que se apele veementemente ao regresso da ilustre ave, teimosamente adormecida. Que descanse – nisso não me meto -, mas que não nos faça isto: não nos abandone! Nada de segundas extinções, caro Dodo. Ponha-se na nossa pena. Todos os dias aparecer na sua óptima casa e dar de caras com a mesma imagem de ausência. Garanto-lhe: Não mata nem mói - dói.»)
Concluído o imperioso desvio, retomemos. Não estamos, divagava-se, muito dados ao diálogo, mas sempre nos vai apetecendo postar diálogos, que, podendo parecer, não é a mesma coisa. Por isso, cá vai mais um, mesmo que perigosamente nos acusem, e com alguma justiça – mesmo que cega ou (e)vidente -, de provocar enfado nas legitimas expectativas dos visitantes, esses bravos resistentes que ainda se aventuram, destemidamente entrando nesta toca perdida. É que não se expondo muitos casos anedóticos, não se falando de óbitos, não fazendo da intriga notícia, não querendo seriamente pisar no minado terreno político, não exibindo uma inteligência de excepção; enfim, sem uma grande colecção de excitantes trunfos, não é de espantar que este cavernoso espaço seja sumariamente ignorado. E até vos digo: Acho bem! Ninguém escapa à furiosa selecção natural, nem mesmo um blogue. Não, não. Não estou a queixar-me - não tenho do quê. E convenhamos: com escrituras destas, não é… lícito nem saudável esperar muitas simpatias neste largo planeta da "blogos-fera". (Volte!)
Feito este disparatado intróito, completamente dispensável mas que com bravura se impôs, revelando-se mais forte que estas desobedientes mãos que teimam em escrevinhar, as putas; posto isto, estamos preparados para fazer entrar em cena a cena dialogada que a partir de agora se representa, assim:
- Tem lume?
- Não me falta, não senhor!
- Era capaz de me dar uma chama para queimar este mata-gatos?
- Não era, sou! Todas as chamas são poucas para matar bichos falsos. Mas permita-me: entrou numa ligeira confusão – acho que o que deseja queimar se chama mata-ratos.
- Sei do que falo.
- Acho bem. Falar do que se não sabe não é só má escolha; é um escolho.
- Na minha cabeça serão sempre, sempre mata-gatos!
- Não discuto. Cada um com as suas convicções! Dizem que o respeitinho é coisa bonita. E mais: há quem goste!
- É defensor desse paneleiro que é fodido por toda a gente?
- Nunca tinha pensado nas coisas dessa estranha forma, ó ... Não se importa que o trate por Mata-gatos?
- Importo-me com tudo. Tudo!
- Às vezes também me baila essa tristeza cá nos "interstícios" da alma, mas nada que uma injecção de confiança interior seguida de um ardente bagaço não mate.
- Quer?
- Quero?
- Um bagaço!...
- Não declino, não senhor.
- Beba daqui mesmo.
- Obrigado, Mata-gatos.
- O meu nome é Sebastião.
- E tem dom?
- Claro! Dom Sebastião!
- Mesmo que me desacredite, lho digo: Tem cara disso.
- De Sebastião?
- De ser o D. Sebastião. E mais ouso acrescentar: malucos, há muitos, mas nem todos são notáveis.
- Notável!... Que merda é essa? Não encontro um notável há séculos! Nem quero! E isto serve para as duas frentes: se alguém me notar, escarro-lhe nas trombas!
- E já vão dois, nessa cegueira, digamos assim. Também eu não os noto com dignidade. Mas olhe que há muito valor por aí, para não falar noutros casos, bem diferentes: os daqueles que se fazem notar.
- Estou-me a cagar.
- Sua Majestade é quem bem sabe!
- Raisparta o mata-gatos! É sempre a mesma merda: está a gente a tirar prazer da matança quando o bicho se apaga.
- Não desanime, homem! O segredo está sempre na boa resolução. Tome lá mais uma chama para assanhar esse gato. Fuma muito?
- O que posso.
- É bem visto. E quanto pode?
- Já posso pouco. O Estado fodeu-me. Tirou-me tudo. Só pensam em chupar, esses cabrões! Esses e aqueles todos!
- Não mente, apesar de às vezes os meus botões desconfiarem dessa incrível máxima universal que assim reza: A culpa é do outro. Já o Estado… É uma máquina apetrechada com grande aparelho de sucção, sim senhor, mas um bocado viciada, não acha?
- Não acho nada. Sei coisas que não me saem da cabeça.
- Ó Mata-gatos, as coisas que não saem da cabeça, ruminadas até ao tutano por assim dizer; isto é, alegremente baralhando os conceitos que só servem para nos baralhar, transformam-se em lapas podres. Deite essa "coisa-lapa" cá para fora! E não pense que isto é um conselho, Deus me livre!, muito menos de grande valia; ou que estou a contrariá-lo. Eu, a Majestades, presto sempre uma genuína vénia. Até acho que às vezes deviam ser uma espécie de guias espirituais. Se calhar o nevoeiro anda em toda a parte menos por esses fantásticos lados! Do avesso anda o mundo quando se tomam algumas Majestades pela ralé, não é?! Agora sou eu que lhe ofereço do seu bagaço. Partilhar, Majestade, partilhar! E mais uma chama, que esse teimoso gato é resistente!
- Está a ver aqueles todos que ali estão? Todos me conhecem. Nem um me fala. São gatos importantes, os falsos. Esquivam-se. Desviam o olhar, cospem, os filhos da puta! Soube-lhes bem comer enquanto lhes agradou. Roubaram-me toda a terra. Toda! Agora que nada tenho, cospem.
- Cuspa também, ó Majestade. Mas tenha cuidado com a altura: quem cospe para o ar acaba por ficar escarrado.
- Eu cá não cuspo neles. Tenho mais dignidade num pintelho que eles no corpo todo! Mas sei o que lhes vai acontecer…
- Então?
- Queimados! Como este cigarro!
- Correndo o risco de mal julgar, percebo-o: Serão consumidos, talvez por si. Não é à toa que fuma mata-gatos! Mas olhe que segundo as últimas rezas da ciência, isso também o mata. Veja bem se o feitiço não se entranha já no justo feiticeiro!
- Que se foda! Hei-de fumá-los até ao fim! E àqueles gatos…
- Tenha a suprema bondade de me perdoar desde já, mas Vossa Excelência arde com minudências. Algum daqueles que diz você não lhe falarem lhe infecta o interior? Olhe este rafeiro!...
- Esses são fiéis!...
- Como todos: quando querem ou quando lhes convém!
- Também tenho um. Ó Marquês? Marquês!...
- Outra realeza, salvo seja! De Sade ou Pombal, Majestade?
- Este é da Madragoa. Rafeiro dos quatro costados!
- São os melhores! Cheira-me que é desta raça que são feitos alguns dos bons bravos.
- Bravo em que sentido?
- Olhe, já que Vossa Excelência me faz pensar, em todos os sentidos: valentes, selvagens, incultos, apoiados! Todos, que neste mundo tudo se multiplica.
- Lérias! É tudo da mesma má raça. Mas este Marquês é de bom serviço. Em todas as caçadas que faz, traz um gato nos dentes. Quer ver? Marquês!... Aí vem ele. Olhe para aquilo! Desta vez vem só com um bocado. Ainda é dia. Está bem ensinado, aqui o rafeiro.
- Ó Majestade, não terá ele se enganado na presa?
- Lérias!
- O que lhe pende da boca é mesmo… uma mão?
- Haveria de ser o quê? É uma manápula, com anilha dourada e tudo! Esta aliança vale três dias de comes e bebes!
- Bem vejo o reluzente oiro, que ao cintilar é como se nos piscasse o olho.
- Comigo as contas fazem-se aqui mesmo, na Terra. Fazem cá, e pagam fora? Céu? Inferno? Sei lá eu se pagam? Na terra se nasce, na terra se morre. Na terra se mata, na terra se come.
- Que visão! Digamos não muito católica. Calma Espírito.
- Também quer provar, aí o seu Espírito?
- Agitação e fervores não lhe faltam! Se calhar também já fez o gosto ao dente, por assim dizer.
- Eles gostam, os desgraçados. Se são animais de caça, então que cacem! Qualquer dia será um daqueles ali.
- Extraordinárias razões me levam a dizer que me sinto bem aqui no seu Reino, Majestade. E olhe que muito cirando eu por aí!
- Lérias! Já não vou nessa cantiga! A gente tem é que se afeiçoar à nossa terra! Conhecer muito bem o nosso canto! Detectar o inimigo e sem tréguas escaqueirar-lhe a cagança!
- Sua Majestade é quem sabe!
- Eu cá só sei que quem me fode não se fica a rir!
- É uma visão! Sou bem capaz de um dia destes voltar aqui às suas terras para palrarmos um bocado mais.
- Faça o que quiser.
- Também partilho, Majestade.

18.6.05

Diálogos de Morte # 12

Caríssimos leitores,
Quiçá ainda mais desconcertantes, regressam os "Diálogos de Morte", esse desafiador espaço impróprio para pessoas menos apreciadoras do bom sumo da palavra. Estamos, está fácil de ver, em fase ainda mais alucinada, com ponta de pueril arrogância, que mesmo assim, nesse luminoso estado de ingenuidade, não deixa de ser veneno desprezível, mas que sempre apimenta a alma, quando a doença - e há tanta por tanto lado - anda à solta. E por falar nela, na doença, apresentamos os protagonistas de hoje: uma donzela com medo, protegida por um doente sem ele. Porque o medo faz tremer, falará ela em itálico. Ele, com letra hirta, falará como entende ser normal.

- O senhor desculpe-me, mas posso pedir-lhe um favor?
- Pedir, minha senhora? Que pretende a donzela deste seu escravo?
- Sabe… é que eu tenho receio de andar por aí sozinha. Os assaltos têm sido mais que muitos. De modo que… se não se importar…
- E até onde deseja que eu a guarde, protegendo-a do seu medo neste breu?
- Eu moro já ali, naquele bairro.
- Mal ou bem afamado, se a indiscrição não a insulta?
- Como assim?
- Assim: há zaragatas a toda a hora; ou só de quando em vez?
- O problema é o caminho até lá.
- É sempre assim, minha doce donzela: o problema está sempre no caminho – por onde seguir, afinal?, tirante as vezes em que o problema já está a caminho e a gente, ignorando a sorrateira aproximação, caminha para a caminha de braço dado com a fictícia segurança, a leste como por aí se diz, pensando que irá entrar no paraíso que não existe, e a milhas de pensar em funestos desfechos, quiçá perpetrados por alguém muito próximo e à traição, com uma valente facada pelas costas.
- Nos dias que correm tenho medo.
- E tenha, minha amiga. Ter medo ajuda e faz crescer. Tenha medo, até nos dias, digamos, mais amenos, quando a calmaria parece matar toda a maldade. Mas não se fique por aí. Tenha medo, sim, mas mate-o. Hoje achou este escravo seu para lhe matar o medo, mas amanhã pode encontrar uma "Alteza" que lhe cheirando a medo, a mata a si.
- Credo! Com essa conversa já estou arrependida: O senhor está meter-me medo.
- Já lhe disse: ter medo faz bem, desde que o consiga vencer.
- E ele não morde?
- O medo?
- Não! Esse cão.
- Oh, não, coitado! É um pobre diabo. É o Espírito.
- Espírito?
- É a graça com que me ocorreu baptizá-lo, salvo seja.
- Como?
- Repare neste absurdo: sem falar, imagine - sem falar!, pediu-me protecção, tal como a senhora fez, com a diferença da senhora se armar de palavras, e eu, por ser péssimo em nomes, chamei-lhe, a ele, claro está, de Espírito, que foi a primeira imprecisa impressão que me deu o seu focinho de pedinte. Como as pessoas, também um cão deve ter graça, não acha?
- Graça?
- Um nome, mesmo sem passar pelo ritual de baptismo, minha querida donzela. E já agora da "outra graça", também. Nada pior do que um ser desengraçado, que curiosamente rima com desgraçado, sem que no entanto queira esta rima insinuar verdade alguma.
- Desculpe perguntar-lhe, mas… está bem?
- Estou sempre bem: sou doente.
- Isso não faz lá muito sentido…
- Digamos que é tão irracional como algum medo.
- Mas sofre de quê?
- De ver o mundo, minha donzela. É o bastante para me infernizar a saúde.
- Então precisa de ajuda!...
- Tenho o meu espírito, minha senhora: médico e coveiro num só.
- Mas se calhar devia procurar outras pessoas… Temos que nos ajudar uns aos outros. Não estamos cá para outra coisa.
- Minha donzela, apesar da sua cara de expressão certa, não estou eu tão certo disso. Mais depressa se vê o preto do que o branco neste desconcertante claro-escuro. E o seu lar: já o vê?
- É aqui mesmo. Muito obrigada.
- Faça-me a fineza: nada de agradecimentos. Foi com desmedido gozo que matei o seu medo. Pelo menos nesta prazenteira caminhada nocturna. Nestas alturas é que tenho pena de ter renegado a viagem a reboque do progresso.
- Perdão?
- Está perdoada, boa alma. E espero que também a mim me perdoe.
- Porquê?
- Por não ter aderido a essa coisa do telefone, inviabilizando assim um futuro contacto, pelo menos sonoro, entre o seu castelo e a minha barraca.
- Não tem telemóvel?!...
- Que expressão de horror, minha donzela! Até os seus agradáveis modos se tornaram sapudos! Estarei eu de costas viradas a alguma "lei"?
- Não… mas é estranho. Toda a gente tem.
- Já vê: não tendo eu o que toda a gente tem, não sendo eu o que toda a gente é, torna-se mais fácil perceber o meu enfermiço estado. Ou discorda?
- Hum… não sei…
- Sei eu, que sinto e cheiro a doença. E deixe-me que lhe diga: cuide-se, que em si já se nota um cheirinho a ela. Mas fique descansada: pode ser a pior doença, a que já se cheira para os seus lados, mas é a mais comum, a que toda a gente tem; e sendo a que toda a gente tem, viverá bem, presumo eu ...

15.6.05


Albert Pinkham Ryder (1847 - 1917)
Flying Dutchman

Prosa Insana # 17

Às vezes acontece-me, toca. Acontece-me ser invadido pelo desesperado gozo que só certa perdição dá. Nessas alturas embrenho-me na floresta. Com passo certo acelero no caminho já traçado, calcado pelas minhas periódicas visitas a certo local, com o fino fito de lá chegar, lá ao coração da selva, onde se abre o Poço da Dúvida. Aí chegado, deliberadamente atiro-me para o abismo e no fundo do poço permaneço, sustendo a respiração, martirizando o corpo, lavando o espírito para, ao subir, chegar à tona mais fresco e mais livre; e ébrio de lucidez que os sonhos voltarão baralhar, já aqui, neste teu pobre mas belo tugúrio. Assim, ainda cansado mas mais seguro, e mais leve também, recomeço a labuta de te manter, ó toca minha.

9.6.05


Camilo Castelo Branco (1825 - 1890)

"Seja qual fôr o lugar que se atribua, na literatura portuguesa, ao assombroso novelista e panfletário, ninguém pode julgar como um entusiasmo apenas passageiro o crescente culto de Camilo. Há quem estranhe que esse culto seja mais intenso que o de Camões e quem cite outras poderosas individualidades da nossa literatura, rivais da sua glória, como Herculano e Antero. Sem discutir a justiça de semelhantes reparos, o que não se pode apoucar é a impressionante grandeza e a emoção que se desprende da obra e da vida de Camilo. Irregular sob o ponto de vista moral, torturado pela nevrose, sacudido entre o riso do sarcasmo e o chôro convulso, criador das mais ideais figuras de mulher e dos tipos mais repelentes ou risíveis, possuindo a imaginação dum grande romancista e novelista, a erudição dum investigador paciente, a visão do historiador, a análise que pinta os vícios e as paixões, e a linguagem mais rica e mais expressiva, dentro dos moldes tradicionais - Camilo parece a um tempo romântico e realista, mas não pertence, na verdade, a escola alguma. A sua existência cativa, tanto como as suas obras, os que estudam tão poderosa e excepcional figura. O epilogo macabro do primeiro sentimento, desenterrando o cadáver da mulher, o adultério, a loucura dum filho e a devassidão do outro, a cegueira, o suicídio, e, antes e depois da morte, a indiferença duma sociedade que só agora vai acordando para a evocação carinhosa do grande escritor, contribuiram para tornar cada vez maior o número dos camilianistas, a sua devoção fervorosa, inquieta e absorvente, em nada inferior à que, na França, por exemplo, manifestam os coleccionadores e admiradores de Stendhal e de Balzac".
Contos:

6.6.05

Prosa Insana # 16

Olhem todos: não tenham medo. São muitos, são aos milhares, mas ordeiros, os carneiros consumistas.
Aí vão eles, alegremente caídos sem disso se lembrarem, de braço dado, cantando em grupo, em uníssono. Eles, o exército da indumentária Zara, todos de igual farpela, aos pinotes grunhindo, entrando para o quartel comercial. E vão de família ao colo, pesados pelo descanso do trabalho diário, procurando a frescura condicionada, babando nas montras, e de seguida entrando de Multibanco em riste: Isto é um assalto. Vamos consumir um pouco de tudo o que aqui está! Ai vão, sim! A roupinha que lhes não faz falta, a malinha que combina com a saiinha curtinha, aquela camisa que está no preço certo, a metade do custo que se dizia justamente custar, duas ou três semanas antes, antes daqueles imperdíveis saldos que de todos os lados saltam, a olhos vistos, e vai de soltar do cartão porque é agora ou nunca, é agora que se adquire as peças com a cor da moda.
É agora que vamos, também e finalmente, andar por aí iguais aos outros, caramba! Quem se julgam eles, esses outros? Mais que nós, catano!? Ai, não! Também podemos comprar, também podemos andar com igual vestimenta. Também queremos pertencer. Também somos. Somos filhos do mesmo Pai. Também merecemos a moda. Também entramos no quartel. Também fazemos estragos nos orçamentos. Também andamos assim - atrás, para à frente chegar e ficar, e bem enfarpelados. E também vamos aos exóticos destinos. Então não? "É que é já a seguir!" É só falar ali com o senhor do banco, a ver se ele tem a lata de nos atirar com um despótico não à cara? Qual! Também a gente vai tocar com a nossa mão na inteligência dos golfinhos curandeiros, lá, onde as águas são azuis, tudo azul, sob o ouro do sol que doira a palmeira mais raquítica. E ficamos lá, umas duas semanas, gozando do pacote, enquanto o banco trata de outro pacote, o nosso, mas de maneira suave, com pequenas fodas mensais, que afinal pouco custam, um bom preço, até justo, se comparado com tão grande orgia que nos proporciona em longínquos paraísos, quase perdidos, não fosse esta maravilha do crédito, este Salvador! E só temos que lhe agradecer, ao Banco: com as suas Graças, a gente goza. Vive, caramba! Que leva a gente deste mundo cruel? É viajar, podendo ou não! Correr o mundo turístico, sem dar de caras com a verdadeira cultura, sem muito comunicar, sem respirar os verdadeiros ares da região, é certo, mas… mas que interessa isso? Vale a pena! A pena de ficar acantonados na sugestão do pacote que tudo arranja, que tudo prevê; e mesmo que ele, o pacote, obrigue a ficar sempre ali, presos naquela paisagem de postal, não faz mal, que a gente só quer ir, ver, gozar, chegar, contar. E chegados ao pobre país natal, está a gente mais ricos: de vistas, de histórias, de fotografias e de pele, ela tostada, com aquele "bronze" que não é daqui, vê-se logo; é de outras paragens, bem mais caras, bem melhores. E para que se não perca esta bela cor que em mais lado nenhum se arranja, toca de o eternizar, nos solários, pois então, esses miríficos caixões que milagrosamente fazem perpetuar na pele aquela doce cor que só o Verão do paraíso dá. E mais: assim queimados - e queimados por queimados -, vai de adquirir nova viatura, uma bomba igual à do vizinho, esse invejoso, que se aproveitou da nossa viagem para trocar de Mercedes, o grande cabrão. Mas a gargalhar não fica. Era o que faltava! Não vai o Banco negar-nos este essencial bem para a nossa sobrevivência em grupo, mostrando que ao grupo pertencemos, que no grupo estamos, de igual para igual, com as mesmas armas, os mesmos apetrechos, as mesmas condições de mostrar que também somos, que também pertencemos. Somos iguais. Todos iguais, ó vizinho. Todos.
Todos carneiros consumistas alimentando o lobo que enche, engorda e fode, mensalmente.

"Eunumpago"

(...)
"Todos sabemos que o que verdadeiramente muda o mundo é o Dinheiro. Pois usemos o dinheiro para mudar o mundo.
Aqui proponho que se crie (está criado) um movimento de cidadãos determinados a mudar o mundo pela força do capital, e cuja única acção nesse sentido será a de deixar de pagar a prestação da casa ao Banco, o símbolo por excelência do Capital.
Enquanto inundamos os tribunais de processos de penhora e outros que tais, asfixiaremos de tal maneira esses barrigudos do charuto, que outra solução não haverá que não seja a da invenção de um outro mundo.
Quero ver, aliás pago para ver, o que terão a dizer sobre a falência do sistema financeiro os escroques que mais uma vez erguem a vergasta sobre o lombo do escravo.
Requer-se apenas um gesto, que afinal de contas é um não gesto: no fim do mês ninguém paga a prestação da casa! E no seguinte também não. E nunca mais paga! E é tudo tão simples quanto isto."

4.6.05



Diálogo entre João de Deus e a Madre

João de Deus - Venho deixar esta criaturinha ao cuidado das irmãs.

Madre - Louvado seja Deus.

João de Deus - Dêem-lhe caldos de galinha e muito repouso.

Madre - Irmãs, demos graças a Deus ao salvador desta pobre infeliz. No mundo implacável e egoísta em que vivemos, raros são aqueles que ainda se ocupam do sofrimento do seu semelhante, pondo em risco a própria vida.
João de Deus - Não há pneumonia que entre comigo.

Madre - Como se chama, bom homem?

João de Deus - João de Deus.

Madre - Nome santo. É crente?

João de Deus - Não é uma questão de crença, é uma questão de confiança. Deus é obscuro.

Madre - Graças à sua boa acção os anjos e os serafins rejubilam no Reino dos céus.

João de Deus - Madre, não transforme um pequeno impulso aquático numa orgia celestial.

Madre - Tome lá cem escudos. Mas não gaste tudo em vinho.

João de Deus - Deus a abençoe, madre abadessa, por esta santa esmolinha.

Madre - Que Deus o acompanhe.

João de Deus - Mais vale só do que mal acompanhado. Ó Agostinho, toma lá cem dólares, mas não gastes tudo em freiras.

Agostinho - Muito obrigado, meu bom senhor.
Em As Bodas de Deus, filme de João César Monteiro.

Palavra de Pessoa

"Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo.
Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miseravelmente os mesmos disciplinados que éramos.
Trabalhemos ao menos – nós, os novos – por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa."
Fernando Pessoa [O Jornal, 8-4-1915 (excertos)]
Assim está impresso na badana d’ O Banqueiro Anarquista, livro de Fernando Pessoa (edições Antígona, 1997)